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Fabrício Carpinejar |
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13/01/2010 |
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Uriel Gonçalves - uriel@queb.com.br |
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Como escritor, tua estreia foi em 1998, quando tu lançaste "As solas do Sol". O que mudou de lá pra cá?
Acredito que já troquei de alma dez vezes desde lá. Mas nunca a vendi. Mudou muito, comecei na literatura sendo introvertido. Vencer a timidez foi um dos grandes desafios. Uma prova disso são minhas leituras gritadas, só o tímido grita quando lê. Ele é um exorcista. Hoje sei mediar meus desejos e entendo que toda conversa com o público faz parte da minha solidão. Quem não conversa com o leitor não saberá ouvir seus personagens.
Tu és um escritor que usa blogs, twitter e é extremamente participativo no mundo virtual. Como isso contribui para tua carreira diretamente?
Estou mergulhado em minha época, não vivo em redomas ou bolhas. Estou sempre interagindo, provocando, aprendendo. Quero ser um velho chato dizendo "no meu tempo...." Com orgulho por ter se arriscado.
O teu livro www.twitter.com/carpinejar reúne uma coletânea de frases diárias, espontâneas e passionais registradas por ti no Twitter. Como surgiu a ideia de publicar estes textos?
É justo o que falava: não ficar planejando demais, aceitar a luminosidade das imperfeições e sua escolta de sombras. O Twitter é uma ferramenta poética milagrosa. Por que inspira a concisão e a densidade. A síntese é da poesia antes mesmo da publicidade. Exercitei no espaço uma das facetas de minha personalidade: a frase de efeito, a máxima, o aforismo, algo que já carregava para a crônica. Nasci para ser oposição. Brigar com o senso comum. Como governo, seria apenas mais um burocrata.
Tu já ganhaste vários prêmios em categorias diversas da literatura. Este ano levou o Prêmio Jabuti na categoria Contos e Crônicas por "Canalha!". O que para muitos seria um sinal de sucesso, mas, qual a tua concepção de sucesso?
Sucesso é poder falir e não mudar em nada sua imagem vitoriosa para a família.
No "Canalha!" tu retratas o homem contemporâneo, perplexo e desorientado com as transformações de comportamento. Para ti, qual é a imagem do "homem contemporâneo" hoje?
Um homem que sabe seduzir com o feminino, que se tornou tridimensional, que foi influenciado pelas mulheres e não teme demonstrar sua sensibilidade. Os caubóis sempre souberam dançar, agora estão criando passos. Acredito que a paternidade alterou o homem, quando ele se aproximou da criação dos filhos passou a ser mais detalhista, cuidadoso, enraizado. Virou mais casa e menos rua.
Em uma entrevista via Twitter, tu havias assumido uma certa resistência para entrar no serviço de micro-blog, hoje costuma postar até cinco tweets por dia. Como aconteceu essa paixão, já que não foi a primeira vista.
Sempre que a gente teme algo, é que desejamos muito. Grande parte de nossos repúdios têm uma admiração escondida. Eu só critico mesmo quem eu amo. Acho que o twitter foi a superação de meus preconceitos com algo novo, uma rede que parecia apenas propalar o que as pessoas estavam fazendo, e vi que não, era um jeito de fuçar os pensamentos mais estranhos, de propor arrebatamentos, deslumbrar versos.
Tu mantém um blog chamado "Futebol é Literatura" e disse que, na tua infância, jogava futebol 12 horas por dia e nas outras 12 pensava em jogar. Se tu não fosse escritor, seria jogador?
Sem dúvida, mas o livro é tão gostoso quanto jogar futebol. Não sou um jogador frustrado. O que poderia ter sido não é maior do que aquilo que sou.
Entre os teus livros, tu escreveste o quase-biográfico "Filhote de Cruz Credo", que trata de bullying de uma forma bem humorada. A obra virou uma peça de teatro nas mãos do Bob Bahlis. Como foi ver a sua obra sendo interpretada, mudaria alguma coisa?
Não, acredito que o espírito opressivo do bullying estava ali, naquela atmosfera dark, de poucas cores. O feio não tem escolha, não pode ficar quieto, será chamado para arena. As gozações, troças, zombarias da infância me motivaram a me vingar pelas palavras. Eu estudei para poder falar. Não deixei nada sem retorno. A literatura são todas as respostas aos insultos que não dei quando pequeno.
Entre todos os teus prêmios, qual o que tu mais exalta?
O parto dos dois filhos. Logo que nasceram, tinha vontade de conversar com qualquer estranho e falar: sou pai. É um contentamento que não cabe no corpo, muito menos num poema.
Tu recebeste dois prêmios nacionais como melhor livro de poesia, seguidamente, em 2001 e 2002, pela Academia Brasileira de Letras e pela União Brasileira de Escritores. São poucos os reconhecimentos que tu teve nacionalmente, a que tu atribui este número?
Não posso me fazer de coitado, apesar da tentação, tive vários reconhecimentos nacionais no início da trajetória. O escritor costuma reclamar mais do que declamar. A singeleza é o afrodisíaco do texto.
Para terminar, nada melhor que uma pergunta manjada e clichê, mas talvez uma das mais difíceis de se responder. O que te faz escrever?
A letra feia. Não quero me entender tão cedo.
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Fabrício Carpi Nejar, ou Carpinejar como ele mesmo prefere, é um escritor gaúcho, autor de 13 livros, que já ganhou mais de 15 prêmios, desde sua estreia na literatura, em 1998. O autor teve, recentemente, um de seus livros, O "Filhote de Cruz Credo", transformado em peça teatral pelo diretor Bob Bahlis, além de ter ganho o 51° Prêmio Jabuti/2009, na categoria de contos e crônicas pela coletânea "Canalha!". Carpinejar é um autor que interage e provoca o público, entrou completamente no universo virtual, mantendo blogs e até mesmo twitter pessoal. Desta sua participação online surgiu um livro inédito que reúne mais de 400 frases do twitter, o primeiro deste tipo no país. O QUEB conversou com este autor tão participativo na cultura local e, obviamente, virtual e descobriu que mesmo em um bate-papo informal, ele é um poeta, usando metáforas para muitas respostas. Crédito: Renata Stoduto / Divulgação |
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